A vida é uma padaria.

Corrija-me

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Não tenha medo, eu já passei por isso outras vezes, pode deletar o pouco de texto que me resta, por aqui não há nada que preste, é um pagodinho dos piores, mande ver. Fique tranquilo, vai doer, sim, mais em mim do que em você. Risque-me, passe por cima do que você quiser. Essa história está mal contada, cheia de erros. Que porra é essa, não dê descanso à borracha, não, isso era tudo o que eu queria, apare as minhas arestas, reescreva-me, altere e revise, negrite e me sublinhe, retalha essa merda toda.

E não se avexe. Às vezes, tudo o que a gente precisa é de um backspace na consciência.

Escrito por Arthur

26/04/2011 em 8:57 PM

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Ciclo amnésico

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Num momento de epifania, você decide: vai tomar café.

Enche a caneca de água, liga o fogo e volta pro computador. Vinte minutos de papo furado no mundo virtual depois, volta pra cozinha e encontra a caneca com um tiquinho de água fervendo. Puto, coloca mais um tanto de água, senta em frente ao computador, levanta, vai até a cozinha, pega a caneca vazia, enche de água, volta pro computador e espera o tempo passar pra encher a maldita caneca, até cansar e tomar um suco.

Escrito por Arthur

21/01/2011 em 7:40 PM

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Acabou

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Por um mês ela esteve comigo, em todos os momentos. Ela me preenchia e me envolvia, era pura sedução. Queria mais e mais, nunca era suficiente. Foi minha companheira de todas as horas, desde a boca do café ao travesseiro de babar. Falava dela o dia inteiro. E o melhor: todos os meus amigos – o mais surpreendente, amigas também – e até desconhecidos queriam saber dela. Eu era o homem mais feliz do mundo.

Mas aí vem o destino e páu. Onze da noite, sozinho, numa colcha sem lençol, num frio infernal, roubando internet do vizinho e sem ela. Se ela estivesse comigo, estaríamos na sala, juntos.

Agora só me resta o sofrimento – e a esperança de que esses dois anos passem logo e a Olimpíada chegue porque, de eleições, ninguém gosta de conversar comigo… Tchau, Copa.

Escrito por Arthur

15/07/2010 em 11:38 PM

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Duas badaladas, um gole.

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Soava a segunda badalada na Igreja da Santa Cecília enquanto a cerveja esquentava o copo da menina. Com um pequeno bloco na mão, a loira levanta pouco a cabeça, mas não por submissão, pelo contrário: ela prefere gastar mais tempo olhando para o que escreve do que para o mundo em volta. Mal passou do primeiro gole, mas já chegou à terceira página escrita.

A cerveja que está prestes a ferver tivera um propósito, para ajudá-la a escrever. Para muitos, tímidos como ela, a escrita é como uma paquera, um começo de namoro. É triste reconhecer, pensa, mas precisa do álcool para se soltar frente ao papel, para contar a ele algumas verdades que jamais diria de cara limpa.

Vale para a vida real assim como para a escrita, que começava a definhar nas linhas tortas da loirinha. O olhar em volta, que há pouco lhe dava assuntos para os rabiscos, agora a confunde. Não há sentido naquela prosa. Ela para, dá um 180º com o pescoço, que só mostra o fim da cobra que se insinua dorso abaixo. Acabrunha-se; bebe o copo americano de uma vez, faz careta, enxuga a boca com o braço e volta à vã tentativa de escrever. O mundo não lhe dá colher de chá, não dá tréguas, é fragmentado, é impreciso, importante e irrelevante num tapa só. As informações, os gestos, tudo lhe pede atenção, tudo lhe desespera. É o cabelo desgrenhado da mulher aos trapos sentada do outro lado da rua competindo com uma senhora à espera de alguém que sairá do metrô atrasada em relação horário combinado, que chega com uma menina que brinca com uma bexiga azul que estoura quando um garoto sai num rompante, bravo, de uma loja de flores, seguida de um ambulante desanimado e uma idosa que serve café e bolo na hora do almoço, sorridente para todos.

É tanta coisa, e tanto riso, choro, soluço, tropeço, tristeza, rezas e outras mil coisas que ocorrem e que, para aquele pequeno ser, sentado em uma cadeira torta de plástico de bar, não fazem o menor sentido. Não há grandes verdades, só há causalidades, não há nada de novo, não há o que ser escrito, falado ou sequer analisado, pensa ela enquanto guarda o bloco de notas, enfia a caneta no bolso, bebe o resto de cerveja fervilhante, paga, olha para os dois lados da rua, ouve três badaladas do sino da Santa Cecília e, então, titubeia. Foi andar sem rumo como de costume, mas com uma diferença. Dessa vez ela tem consciência disso. Volta, senta e escreve.

Escrito por Arthur

13/07/2010 em 1:26 AM

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Há!

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Prometo que volto para esse blog e a jogar basquete nessas férias. Pelo menos um post e um racha por ano. Juro.

 

Escrito por Arthur

07/07/2010 em 11:09 PM

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Pra quê

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Para escrever, para olhar a mim mesmo enquanto aprendo a não errar tanto. Seja na escrita, seja na vida.

Escrito por Arthur

08/03/2010 em 10:02 PM

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Ida

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Quando todos acordam, ela dorme. Muito. Amigos, irmãos, o pai, a mãe, todos se perguntam, “como andava”, “o que fazia”, “o que queria”. E quando volta, nada muda. Para ela, voltar para a cidade natal é voltar para o quarto.

De todos os lugares daquele município, aquele é o único canto onde ela pode olhar em volta e ser feliz. Ali, nada mudou. O armário é o mesmo, no mesmo lugar. Os livros estão empilhados como deixou, até o papel rabiscado com alguma besteira que escreveu bêbada, continua em cima do mesmo criado mudo. Intacta, como se a esperasse a cada seis meses e alguns feriados.

Aquele quarto é o que restou. Já faz cinco anos que não vê a turma com que andava todos os dias, que a fazia perder tempo, que a fazia ganhar alegria. Hoje ela arrumou maneiras diferentes de conseguir desperdiçar dias. A alegria, por sua vez, tem se tornado cada vez mais fugaz.

Agora este é mais um pensamento que se evanesce. Seu corpo está no quarto enquanto a mente se transporta para a rodoviária. Em meio a malas, chicletes pisados e mães puxando seus filhos pela orelha para andarem mais rápido, ela está lá. Tudo que lhe vem à cabeça é: isso faz parte de um protocolo.

continua…

Escrito por Arthur

23/02/2010 em 5:17 PM

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Uma ambição rara

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Não importa se as vacas andam magras, se a crise chegou ou saiu, ou qualquer outro fato que possa mudar a economia do país, ou do Vale, ou de Jacareí, ou até do comércio da rua Dr. Lúcio Malta. No mundo da concorrência, do lucro e da pró-atividade, seu Carlos dá as costas para o Mercado – Municipal de Jacareí – antes do meio-dia. A ambição desse senhor, descendente de japoneses, é bem diferente dos engravatados que estampam capas das VocêsS.A.s da vida.

Ele possui uma pequena pastelaria no mercadão, ou seja, é um microempresário. De sucesso, por sinal. Em meio à concorrência desleal dos chineses que dominam territorialmente o mercado, ele compensa o fato de estar longe do portão principal com a qualidade, é o melhor pastel de lá. Mas a alta demanda pelos seus serviços isso não abala as suas convicções.

Para seu Carlos, basta que ele venda a cota de pastéis de carne, de queijo e algumas especiais – daqueles que são quase uma refeição –, que o estabelecimento fecha, não importa o horário. Sem o menor traço de dó ou piedade dos famintos que chegam ao local. Já houve vezes em que cheguei às 10h30 e ele estava saindo do mercado, assobiando.

continua…

Escrito por Arthur

21/02/2010 em 1:14 PM

Porra…

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Mais uma vez eu retorno a essa pocilga. Mas dessa vez, vou tentar escrever mais.

Escrito por Arthur

15/10/2009 em 3:37 PM

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Quando chorou

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Às três da manhã, um pinguinho só. Foi um soluço que soltou aquela gota do olho esquerdo. Ele fingiu que não sentiu. A lágrima desceu, escorreu a barba do dito cujo até o queixo. E dali, toda teimosa, demorou uns cinco momentos, como que se pedisse ao senhor que a enxugasse. Tudo em vão.

Caiu. E lavou a alma de quem estava embaixo, tomando cerveja, perambulando sozinho pela Augusta, pensando na loucura do viver, do beber, do morrer.

Este senhor também rabiscava, enquanto uma menina isolada estava lá, falando alto, cantarolando altiva e poderosa em meio a garrafas, mesas, xavecos furados, cabisbaixos no microfone e centelhas.

Porque ela, ali ao lado por vontade própria – diz ela -, é supervisora. Passou-se o tempo em que vendia o almoço da manhã para pagar o couvert do cabisbaixo, quando voltava a pé para economizar bilhete único. Agora ela assegura que possui tempo, experiência, ciência e consciência, além de tudo o mais que é bonito e termina com ência. Em poucas palavras: ela é foda.

Cresce em cima do menino da mesa vizinha, mas não aguenta cinco minutos sem crença. Não pense na tampa da panela. Basta meia dúzia de palavras e ela desmonta no meio do álcool. Cresça, não crença, menina. Faça cair uma lágrima na mesa ao lado, mas uma de alegria. Uma alegria do ateu, que não acredita em alma gêmea, que não acredita em porra nenhuma. Só em você. Se é que ele existe, se é que você realmente existe, ou só finge existir. Os gritos só servem para ofuscar, é sofrimento puro, é desespero.

Eu sei, desculpa. Às vezes, só nos resta fingir. Pode chorar junto.

Escrito por Arthur

12/06/2009 em 1:38 AM

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