A vida é uma padaria.

Uma ambição rara

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Não importa se as vacas andam magras, se a crise chegou ou saiu, ou qualquer outro fato que possa mudar a economia do país, ou do Vale, ou de Jacareí, ou até do comércio da rua Dr. Lúcio Malta. No mundo da concorrência, do lucro e da pró-atividade, seu Carlos dá as costas para o Mercado – Municipal de Jacareí – antes do meio-dia. A ambição desse senhor, descendente de japoneses, é bem diferente dos engravatados que estampam capas das VocêsS.A.s da vida.

Ele possui uma pequena pastelaria no mercadão, ou seja, é um microempresário. De sucesso, por sinal. Em meio à concorrência desleal dos chineses que dominam territorialmente o mercado, ele compensa o fato de estar longe do portão principal com a qualidade, é o melhor pastel de lá. Mas a alta demanda pelos seus serviços isso não abala as suas convicções.

Para seu Carlos, basta que ele venda a cota de pastéis de carne, de queijo e algumas especiais – daqueles que são quase uma refeição –, que o estabelecimento fecha, não importa o horário. Sem o menor traço de dó ou piedade dos famintos que chegam ao local. Já houve vezes em que cheguei às 10h30 e ele estava saindo do mercado, assobiando.

E isso não é de hoje. Quando eu era mais novo, o mercado fazia parte do meu trajeto entre a escola e a minha casa. Passava por lá às 13h, logo após o fim da aula, e nunca tinha visto aquele lugar aberto. Nem sabia o que era.

E se você chegar por lá às 11h e, num lance de sorte, encontrar a pastelaria aberta, saiba que a chance de conseguir um pastel de carne é mínima. Tranquilamente, seu Carlos vira e lhe diz, na maior, que já acabou as de carne, que só sobraram uma de queijo e as especiais. De tão diferente do mundo em que “o cliente tem sempre razão” do just-in-time e outros imperativos de consumo, chega até a dar empatia pelo japonês. Faz até pensarmos se não vale a pena trabalhar só pro gasto.

Vamos fazer as contas. O Mercado de Jacareí abre às 7h. Geralmente ele fecha às 11h30, no mais tardar ao meio-dia. Ou seja, são cinco horas diárias, o que dá uma jornada de trabalho de 25 horas semanais, que seu Carlos faz com sua mulher.

É impossível deixar de admirá-lo. Convenhamos, quantos de nós, self-made-men, executivos e gestores de nossa própria carreira, teriam os culhões de, todos os dias, a uma hora do almoço de uma multidão que vai até o mercado tomar uma garapa e um pastel, simplesmente fechar a pastelaria ou dizer que não há mais nada para vender? Ou, ainda, sabendo que os seus pastéis são os melhores que há por ali, não teriam a ambição de querer ganhar mais dinheiro trabalhando umas 44 horas semanais, como legislam por aqui?

Seria lindo ver o seu Carlos na capa da Você S.A. Ser um executivo de sucesso todo mundo quer. Quero ver é ter a ambição desse businessman: trabalhar o necessário e ganhar o que é preciso para ser feliz. Não é pra qualquer um.

Escrito por Arthur

21/02/2010 às 1:14 PM

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