Ida
Quando todos acordam, ela dorme. Muito. Amigos, irmãos, o pai, a mãe, todos se perguntam, “como andava”, “o que fazia”, “o que queria”. E quando volta, nada muda. Para ela, voltar para a cidade natal é voltar para o quarto.
De todos os lugares daquele município, aquele é o único canto onde ela pode olhar em volta e ser feliz. Ali, nada mudou. O armário é o mesmo, no mesmo lugar. Os livros estão empilhados como deixou, até o papel rabiscado com alguma besteira que escreveu bêbada, continua em cima do mesmo criado mudo. Intacta, como se a esperasse a cada seis meses e alguns feriados.
Aquele quarto é o que restou. Já faz cinco anos que não vê a turma com que andava todos os dias, que a fazia perder tempo, que a fazia ganhar alegria. Hoje ela arrumou maneiras diferentes de conseguir desperdiçar dias. A alegria, por sua vez, tem se tornado cada vez mais fugaz.
Agora este é mais um pensamento que se evanesce. Seu corpo está no quarto enquanto a mente se transporta para a rodoviária. Em meio a malas, chicletes pisados e mães puxando seus filhos pela orelha para andarem mais rápido, ela está lá. Tudo que lhe vem à cabeça é: isso faz parte de um protocolo.
A vida inteira tem sido um grande protocolo, ela pensa, sentada entre duas senhoras que aguardam o ônibus para Aparecida, afinal, era 12 de outubro e senhoras católicas sempre vão até lá. Durante o semestre, mete o nariz no trabalho, nos livros e em outras coisas. No fim do semestre, vai à rodoviária, espera horas pelo ônibus, que vai levá-la madrugada adentro até o julgamento de sua mãe, as conversas sobre emprego e dinheiro com o seu pai e a vida que deixou lá atrás. Lá sente falta em enfurnar o nariz – não nos livros.
Virar isso de ponta-cabeça, transformar tudo isso num anti-clímax , para ela, é irresistível. E assim, as perguntas, a apreensão familiar e tudo o mais, se torna corriqueiro. E assim se cria uma nova rotina. Ela chega depois do esperado, as pessoas se perguntam, os pais demonstram ansiedade de vê-la, e ela fica no quarto. Quando chega, é a primeira coisa que faz. Mal abre as malas e já deita. Pega um livro, uma revista, às vezes o computador, mas na cama.
Não foi sempre assim. Ela já quis sair, mas isso faz tempo, numa época em que ela tinha a vã ilusão de encontrar as coisas iguais. Longe disso, os amigos casaram, fizeram novos amigos, novos hábitos. E ela tem raiva de tudo isso. Agora só lhe resta o armário, os livros empilhados e o papel rabiscado em cima da mesa. Um papel que está ali, intacto há cinco anos, como uma prova de que ali o mundo parou.
No papel só está escrito um clichê que ela não esquece de ter escrito.
A vida é uma viagem de ida. Infelizmente.