Duas badaladas, um gole.
Soava a segunda badalada na Igreja da Santa Cecília enquanto a cerveja esquentava o copo da menina. Com um pequeno bloco na mão, a loira levanta pouco a cabeça, mas não por submissão, pelo contrário: ela prefere gastar mais tempo olhando para o que escreve do que para o mundo em volta. Mal passou do primeiro gole, mas já chegou à terceira página escrita.
A cerveja que está prestes a ferver tivera um propósito, para ajudá-la a escrever. Para muitos, tímidos como ela, a escrita é como uma paquera, um começo de namoro. É triste reconhecer, pensa, mas precisa do álcool para se soltar frente ao papel, para contar a ele algumas verdades que jamais diria de cara limpa.
Vale para a vida real assim como para a escrita, que começava a definhar nas linhas tortas da loirinha. O olhar em volta, que há pouco lhe dava assuntos para os rabiscos, agora a confunde. Não há sentido naquela prosa. Ela para, dá um 180º com o pescoço, que só mostra o fim da cobra que se insinua dorso abaixo. Acabrunha-se; bebe o copo americano de uma vez, faz careta, enxuga a boca com o braço e volta à vã tentativa de escrever. O mundo não lhe dá colher de chá, não dá tréguas, é fragmentado, é impreciso, importante e irrelevante num tapa só. As informações, os gestos, tudo lhe pede atenção, tudo lhe desespera. É o cabelo desgrenhado da mulher aos trapos sentada do outro lado da rua competindo com uma senhora à espera de alguém que sairá do metrô atrasada em relação horário combinado, que chega com uma menina que brinca com uma bexiga azul que estoura quando um garoto sai num rompante, bravo, de uma loja de flores, seguida de um ambulante desanimado e uma idosa que serve café e bolo na hora do almoço, sorridente para todos.
É tanta coisa, e tanto riso, choro, soluço, tropeço, tristeza, rezas e outras mil coisas que ocorrem e que, para aquele pequeno ser, sentado em uma cadeira torta de plástico de bar, não fazem o menor sentido. Não há grandes verdades, só há causalidades, não há nada de novo, não há o que ser escrito, falado ou sequer analisado, pensa ela enquanto guarda o bloco de notas, enfia a caneta no bolso, bebe o resto de cerveja fervilhante, paga, olha para os dois lados da rua, ouve três badaladas do sino da Santa Cecília e, então, titubeia. Foi andar sem rumo como de costume, mas com uma diferença. Dessa vez ela tem consciência disso. Volta, senta e escreve.