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Toma essa, Adam Smith
Fiz uma pequena pesquisa de preço de cerveja na Barra Funda e nos Campos Elíseos. Dos 20 estabelecimentos consultados, 18 responderam R$3,50 à pergunta: ‘Quanto custa a cerveja?’. Dos bares restantes, a Itaipava (que costuma ser mais barata) custa três reais em uma, e no bar vencedor, um boteco xumbrega da Avenida Barra Funda, a cerveja mais cara custa 2,50 reais. Deixando bem claro: excluímos as padarias chiques da busca.
O mais impressionante dessa pesquisa é o cartel feito na região. Como é possível? Não interessava o naipe do bar: seja rico, seja pobre, todos têm o mesmo valor. A pergunta que fica é: se todos possuem o mesmo preço, por que os botecos conseguem sobreviver?
Eu realmente não tenho a resposta para isso, mas uma coisa é certa: Adam Smith estava errado. Certeza.
Valei-me, Quiosque do Djalma!
Não tem nada mais gostoso que passar um domingo à toa na praia. Às vezes, se faz quase nada por lá (nem ir pra água, nem nada), mas só de não estar sem fazer nada em sua casa, com aquele calor abafado que não tem ventilador que ajude (sim, ventiladores; ecologicamente corretos – ou pobres), já dá um alívio.
Pensando bem, o domingão foi um alívio porque o ambiente foi especialmente favorável. Fomos para Mococa – uma praia legalzinha de Caraguas –, foi um dia de sol, a água estava boa e o melhor: o quiosque onde ficamos – eu, Mari, parentes e agregados – só tocou U2. Ou seja, o câncer de quase todas as praias do país não estava presente, pelo menos não naquela pequenina faixa de quinze metros de litoral paulista. Sim, estou falando de funk carioca.
Nada contra os cariocas, pelo contrário, mas já faziam uns sete domingos em que eu passava o calor de Jacapaw City ouvindo o batidão. Numa das esquinas do meu quarteirão há um verdadeiro “cruzamento do Funk”. Ali estão uma padaria, um bar e um mercadinho, onde um punhado de jacareienses se juntam aos domingos para conversar sobre o rumo da Bolsa de Valores ou, quem sabe, refletir sobre o fim da História, embalados pelo som relaxante de músicas como a “Dança da Motinha”. Sempre, claro, naquele volume em que a caixa de som e os meus tímpanos estão prestes a estourar. Outra coisa a ponto de explodir são os escapamentos de motos: alguns pilotos bem-intencionados, com nada mais do que amor no coração, ficam acelerando suas motos no cruzamento e fazendo aquele barulho singelo e peculiar, por algum motivo muito nobre.
Você pode se perguntar: mas você não mora aí desde o tempo em que cu era quadrado? Não acostumou ainda? Pois é, camarada, nem sempre foi assim. O meu bairro já foi um lugar mais adequado a ouvidos sensíveis. Havia, claro, um vizinho ou outro que acordava e botava o seu som no último. São exceções completamente compreensíveis, que dão até alegria e assunto ao lugar (Você viu o Arthur? Curte Falcão, aquele da música de corno… Esquisito esse menino, né…), mas não passavam disso.
Bom, voltando ao assunto: Os arredores da Rua José Salgado Bicudo nunca haviam presenciado esse show até a chegada do Bar do Peixoto, ex- Bar Sem Lona (ele devia, aliás, ter mantido o nome antigo). O boteco era daqueles onde havia sempre dois bêbados jogando sinuca e um monte de outros assistindo o grande duelo, como se o Rui Chapéu estivesse enfrentando o Genival Lacerda num embate mortal. Não que eles não saibam jogar – a grande maioria não sabe, mas este não é o motivo central – ou são grandes jogadores de sinuca, longe disso. A verdade é que eles já não estão com coordenação motora para isso. Só de estar ali, de pé, observando a partida, já é uma vitória para o sujeito. Não pensem que tenho algo contra esses caras, pelo contrário, eles não fazem mal a ninguém, acho até divertido passar um dia num botecão, bebendo e trocando idéia com eles.
Mas, pelo menos perto da minha casa, eles só deixaram saudades. Todos se foram, substituídos por outro público jacareiense, bem “diferenciado”. No início do Bar do Peixoto, eram poucos os fregueses que atravessavam a cidade atrás dos bolinhos de bacalhau e pelo fato de que os donos e o atendimento ali são muito legais. Com o tempo, os atrativos foram trazendo cada vez mais gente, a ponto de, um certo dia, ao parar o carro em frente de casa, um flanelinha me perguntou se eu queria que ele guardasse para mim – preferi estacionar dentro da garagem. Enfim, é uma verdadeira balada a céu aberto, cheio de pessoas bebendo, conversando e paquerando. Mas isso é legal, não há problema nenhum. O que é feroz é o funk, som oficial do ritual de acasalamento de cariocas, que foi amorosamente acolhido pelos freqüentadores dominicais do Jardim Santa Maria.
Mas não neste domingo. Como um presente de aniversário adiantado, o Quiosque do Djalma me concedeu um fim de semana sem o batidão infernal. Valei-me!